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Patrim√īnio cultural quilombola de MS √© destaque de pesquisa da UEMS

Por Redação em 21/11/2020 às 07:03:25

A pesquisa intitulada "Invent√°rio do Patrimônio Cultural Imaterial das Comunidades Quilombolas de Mato Grosso do Sul" foi institucionalizada no √Ęmbito da UEMS, em 2019, e enfatiza sobretudo os festejos de comunidades quilombolas sul mato grossenses. A professora da UEMS, dos cursos de História e do PofHistória, Manuela Areias, pesquisa sobre o patrimônio cultural imaterial das comunidades quilombolas do estado de MS e trabalhou, até o momento, com tr√™s tradi√ß√Ķes: Festa dos Santos Reis, Festa de S√£o Pedro e o saber expresso na produ√ß√£o de farinha de mandioca.

O projeto trabalhou com a Festa dos Santos Reis, realizada h√° mais de cem anos por membros da fam√≠lia Modesto, moradores do quilombo Águas de Miranda (Bonito), a Festa de S√£o Pedro, do quilombo Fam√≠lia Cardoso (Nioaque), e o saber expresso na produ√ß√£o da farinha de mandioca, da comunidade quilombola Furnas dos Baianos (Aquidauana).

Manuela Areias destaca que o reconhecimento e a salvaguarda do patrimônio cultural quilombola s√£o essenciais para a continuidade de sua reprodu√ß√£o cultural, fortalecendo a identidade do grupo e o sentimento de pertencimento de seus moradores. "As express√Ķes culturais protagonizadas por quilombolas revelam uma memória da di√°spora africana que deve ser valorizada, lembrada e divulgada. S√£o instrumentos de resist√™ncia e representam a luta das comunidades quilombolas para garantir seus direitos e a continuidade de suas manifesta√ß√Ķes culturais em terras sul mato-grossenses".

Atualmente, o estado de Mato Grosso do Sul re√ļne um contingente de 18 comunidades remanescentes de quilombos reconhecidas pela FCP (Funda√ß√£o Cultural Palmares) e que est√£o com processos abertos no INCRA (Instituto Nacional de Coloniza√ß√£o e Reforma Agr√°ria) – órg√£o respons√°vel pelo reconhecimento, identifica√ß√£o, delimita√ß√£o e titula√ß√£o dos territórios quilombolas – nos quais se reivindica a regulariza√ß√£o fundi√°ria de seus territórios tradicionais.

A pesquisadora ressalta que os quilombos n√£o pertencem somente ao passado escravista. Tampouco se configuram como comunidades isoladas, no tempo e no espa√ßo, sem qualquer participa√ß√£o em nossa estrutura social. "Ao contr√°rio, s√£o quase quatro mil comunidades quilombolas espalhadas pelo território brasileiro, que se mant√™m vivas e atuantes, lutando pelo direito de propriedade de suas terras, garantido pela Constitui√ß√£o Federal desde 1988, entre outras pol√≠ticas p√ļblicas", enfatiza.

Em rela√ß√£o ao patrimônio cultural, para Manuela Areias, as festas de santo realizadas nas comunidades quilombolas do estado de Mato Grosso do Sul estabelecem uma rela√ß√£o intr√≠nseca entre religiosidade, fé e memória da di√°spora africana. "Muitas festas de santo, entre outras pr√°ticas culturais, est√£o relacionadas à religiosidade dos africanos da di√°spora, que permaneceram no sul de Mato Grosso", explicou.

A pesquisadora destaca que essas tradi√ß√Ķes representam a luta de comunidades negras para garantir a continuidade de seus tra√ßos culturais em terras sul-mato-grossenses. "A valoriza√ß√£o e salvaguarda dessas celebra√ß√Ķes, dos elementos necess√°rios para suas realiza√ß√Ķes (como indument√°rias, rezas, alimentos, instrumentos musicais, entre outros) e dos saberes expressos na produ√ß√£o da farinha de mandioca s√£o essenciais para a continuidade e suas reprodu√ß√Ķes culturais nas comunidades, fortalecendo as identidades dos grupos e os sentimentos de pertencimento de seus moradores", disse.

O projeto conta com o apoio e parceria do IPHAN-MS e com a participa√ß√£o do bolsista de inicia√ß√£o cient√≠fica Yan Prado Almeida, do curso de História da UEMS em Amambai.

Festa dos Santos Reis

Localizada a 70 quilômetros do munic√≠pio de Bonito, a Comunidade Quilombola Ribeirinha Águas de Miranda, do distrito Águas de Miranda, certificada pela Funda√ß√£o Cultural Palmares em 2012, realiza anualmente, h√° mais de 30 anos, a Folia de Reis ou Festa dos Santos Reis. A festa, que re√ļne cerca de 1.000 pessoas, no primeiro ou segundo final de semana de janeiro, faz parte do calend√°rio de festejos do munic√≠pio desde 2012.

Inicialmente foi organizada apenas pela família Modesto, vinda da Bahia para o antigo Mato Grosso, e que mantinha a tradição há cerca de 100 anos, de pai para filho. A família Modesto continua presente na continuidade da folia, que tem como "Mestre da Bandeira" seu patriarca, Amarílio Modesto da Silva.

Durante a programa√ß√£o da festa ocorrem diversas atividades, como celebra√ß√Ķes religiosas – com prociss√£o e missa – shows, churrasco e torneio de futebol. Can√ß√Ķes tradicionais e instrumentos musicais acompanham os grupos formados pelos tr√™s reis magos (representa√ß√Ķes), palha√ßos (basti√Ķes) – com m√°scaras e apitos, que marcam a chegada e a partida da bandeira – rainha, coro, mestre (ou embaixador) e bandeireiro ou alferes da bandeira.

Festa de S√£o Pedro

Na Comunidade Quilombola Fam√≠lia Cardoso, o culto e a festa de S√£o Pedro, realizados anualmente no m√™s de junho, foram transmitidos com o passar dos anos para todas as gera√ß√Ķes dos quilombolas do Largo da Ba√≠a. Durante esta festa tradicional, aberta aos moradores de Nioaque e de outras cidades, a comunidade ressalta a cultura da di√°spora africana por meio de dan√ßas no ritmo das batidas dos tambores e roupas t√≠picas, conhecidas como "amarra√ß√£o".

Todos os anos, moradores das comunidades rurais e do n√ļcleo urbano de Nioaque comparecem para prestigiar o trabalho da fam√≠lia Cardoso, cujos seus membros ocupam posi√ß√Ķes de festeiros. A festa de S√£o Pedro é fundamental para afirma√ß√£o da identidade quilombola, e atualmente motiva a reuni√£o das fam√≠lias da comunidade. É uma manifesta√ß√£o cultural de resist√™ncia quilombola na luta pelos seus direitos.

Produção artesanal da farinha de mandioca

Sobre a rela√ß√£o de trocas culturais e transmiss√£o de saberes expressos no cotidiano das comunidades tradicionais, além das festas santo e dos elementos necess√°rios para suas realiza√ß√Ķes (como indument√°rias, rezas, alimentos, instrumentos musicais, entre outros), destacam-se os saberes relacionados à produ√ß√£o artesanal da farinha de mandioca da Comunidade Quilombola Furnas dos Baianos. Neste quilombo, que se localiza no distrito de Piraputanga, do munic√≠pio de Aquidauana, seus moradores mantém a tradi√ß√£o cultural da produ√ß√£o da farinha de mandioca h√° mais de setenta anos.

Os relatos dos moradores evidenciam que a história dessa comunidade se relaciona ao cultivo da mandioca e à produ√ß√£o artesanal da farinha. No in√≠cio da década de 1950, algumas fam√≠lias de ascend√™ncia africana, vindas da Bahia, fugindo da seca no Nordeste, chegaram ao distrito de Piraputanga, estabelecendo-se na regi√£o por meio do cultivo de ro√ßas para subsist√™ncia e comercializa√ß√£o de produtos. Desde ent√£o, iniciou-se um processo de transmiss√£o de saberes na produ√ß√£o de alguns alimentos, como a farinha de mandioca.

A farinha, produzida artesanalmente, era enviada a Corumb√°, importante zona portu√°ria da época, pela estrada de ferro (o "Trem do Pantanal"), sendo escoada para outras cidades. Cabe ressaltar que a Comunidade Furnas dos Baianos foi reconhecida como quilombola pela Funda√ß√£o Cultural Palmares em 2007, integrando a rede das 18 comunidades remanescentes de quilombos que fazem parte do estado de Mato Grosso do Sul.

"O saber expresso na produ√ß√£o da farinha de mandioca é um bem cultural relacionado ao Patrimônio Cultural Imaterial do Quilombo Furnas dos Baianos. O patrimônio imaterial pode ser caracterizado como um conjunto de pr√°ticas da vida social que se manifestam em saberes, of√≠cios e modos de fazer, celebra√ß√Ķes, formas de express√£o e nos lugares, que as comunidades reconhecem como parte integrante de sua cultura, sendo transmitido de gera√ß√£o para gera√ß√£o" ressaltou a pesquisadora Manuela Areias.

Assessoria UEMS

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