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S√≥ interna√ß√Ķes em UTIs podem custar mais de R$ 1 bi ao SUS, aponta estudo

Se o número de infectados chegar a 10% da popula√ß√£o brasileira, o cen√°rio mais grave previsto em SP pelo governo paulista, o custo chegaria a R$ 9,31 bilh√Ķes.Isso [...]

Por Redação em 16/03/2020 às 14:08:46

Se o n√ļmero de infectados chegar a 10% da popula√ß√£o brasileira, o cen√°rio mais grave previsto em SP pelo governo paulista, o custo chegaria a R$ 9,31 bilh√Ķes.

Isso é quase o dobro do aporte de R$ 5 bilh√Ķes contra o coronav√≠rus que deve ser feito pelo Congresso Nacional, segundo anunciou o governo na √ļltima semana.

V√≠rus respiratórios s√£o facilmente transmiss√≠veis e chegam a afetar, no exemplo do influenza (causador da gripe), de 5% a 20% da popula√ß√£o de um pa√≠s, a depender do ano.

O estudo é assinado pelos pesquisadores Rudi Rocha (da FGV e do Ieps), Beatriz Rache (Ieps), Let√≠cia Nunes (Ieps) e Adriano Massuda (FGV).

"A gente necessariamente tem que conter a curva, da forma que for. Caso os cenários mais preocupantes se confirmem, não vai ser nem uma questão de recursos, mas de mobilização de todo o SUS, da coordenação da máquina, aquisição de equipamentos e medicamentos", afirma Rocha.

As medidas de conten√ß√£o podem gerar outro efeito positivo, diz, na medida em que reduzem outras demandas hospitalares. Restri√ß√£o de eventos e aglomera√ß√Ķes podem reduzir também outras infec√ß√Ķes e até problemas associados, como acidentes de carro.

Com o crescente aumento de casos do coronav√≠rus e a hesita√ß√£o do governo paulista em adotar medidas oficiais para proibir aglomera√ß√Ķes, cresce o temor de que a situa√ß√£o saia do controle e o sistema entre em colapso.

A preocupa√ß√£o consta em documento enviado aos governos estadual e municipal de S√£o Paulo pelo Ministério P√ļblico na sexta-feira (13).

Nele os promotores dizem que é notório e sabido o déficit de médicos no SUS e que o n√ļmero de leitos (geral e os de UTI) na cidade de S√£o Paulo s√£o insuficientes para o dia a dia da popula√ß√£o.

"N√£o suportariam a demanda de um cont√°gio explosivo da Covid-19, mesmo considerando eventual incremento com aporte de custeio pelo governo federal", diz o texto assinado pelos promotores.

Segundo ele, os dados encaminhados a eles pela Secretaria Municipal de Sa√ļde mostram um taxa de interna√ß√£o de 12,9% dos casos confirmados de coronav√≠rus.

"Atestam o risco de colapso do sistema de sa√ļde, caso efetivada a progress√£o geométrica em que o v√≠rus tem se alastrado no mundo, de modo geral, e no Estado de S√£o Paulo, em particular."

Especialistas ouvidos pela reportagem dizem que a pandemia colocar√° o sistema p√ļblico à prova em todos os seus n√≠veis: da aten√ß√£o b√°sica à rede hospitalar e suas unidades de terapias intensivas.

O aumento de casos da infec√ß√£o ocorre em um momento em que h√° grande gargalo na aten√ß√£o prim√°ria, agravado com o fim do Mais Médicos e os atrasos para colocar em pr√°tica o programa que veio para substitu√≠-lo.

Das 18.240 vagas originais, apenas 13.845 t√™m médicos em atua√ß√£o hoje. As demais est√£o suspensas ou aguardam para serem substitu√≠das.
Ainda que o ministério tenha lan√ßado edital para colocar 5.811 médicos extras em postos de sa√ļde até o in√≠cio de abril, especialistas preveem a sobrecarga na rede.

"O governo est√° chamando médicos para cobrir o buraco que criou, corre atr√°s do preju√≠zo de desestruturar um programa bem-sucedido como o Mais Médicos e propor uma coisa engenhosa que ainda n√£o conseguiu tirar do papel", diz o médico sanitarista Adriano Massuda, professor da FGV e pesquisador de Harvard em estudos sobre o SUS.

Segundo ele, se a atenção básica não for resolutiva, muita gente com sintomas leves de coronavírus vai buscar as emergências, estrangulando ainda mais a rede hospitalar.

Deisy Ventura, professora da Faculdade de Sa√ļde P√ļblica da USP, lembra que, embora a exist√™ncia e a capilaridade do SUS j√° o coloque como um dos mais bem preparados do mundo para enfrentar a epidemia, n√£o é poss√≠vel ficar indiferente ao processo de sucateamento do sistema.

"De repente, chega uma emergência e aí a gente fica questionando se o sistema tem ou não capacidade. Nenhum Estado do mundo está preparado para um crescimento vertiginoso de casos, muitos dos quais vão necessitar de estrutura hospitalar."

Estudo do CFM (Conselho Federal de Medicina) mostrou que menos de 10% dos munic√≠pios brasileiros disp√Ķem de leito de UTI no SUS: apenas 532 de 5.570 munic√≠pios.

Conselho Federal de Medicina. Foto: Divulgação

De acordo com dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Sa√ļde, o Brasil tem quase 45 mil leitos de terapia intensiva. Desses, 49% est√£o dispon√≠veis para o SUS e 51%, para institui√ß√Ķes privadas ou de sa√ļde suplementar.

"Ser√° preciso uma boa capacidade de coordena√ß√£o. A expectativa é de que haja grande demanda e baixo n√ļmero de respiradores, por exemplo, equipamento fundamental para os casos muito graves", diz Massuda.

Só 9% dos respiradores dispon√≠veis em hospitais do pa√≠s est√£o na rede p√ļblica. Os aparelhos s√£o essenciais para a parcela dos doentes que desenvolve dificuldade de respirar–sintoma que indica a gravidade do quadro e é usado como indicador de quando se deve procurar um hospital.

O pa√≠s tem 64,9 mil respiradores/ventiladores. Desse total, 5.846 est√£o dispon√≠veis no SUS. A propor√ß√£o desses equipamentos na rede p√ļblica em rela√ß√£o ao total é menor que a média em S√£o Paulo (6,75% de um total de 18.465).

Em n√ļmeros absolutos, estados do Norte t√™m a pior quantidade: o Amap√° só tem 94 respiradores/ventiladores no total, e apenas 11 na rede p√ļblica. Roraima tem 152, e 10 deles est√£o no SUS. A regi√£o, porém costuma ser a menos afetada por essas doen√ßas.

Segundo Suzana Lobo, presidente da Amib (Associa√ß√£o de Medicina Intensiva Brasileira), a equipe também é importante. "Muitas vezes as pessoas ficam preocupadas com o n√ļmero de leitos e equipamentos, quando, às vezes, a organiza√ß√£o e a equipe s√£o pontos fundamentais."

Uma equipe da UTI deve ser formada por in√ļmeros profissionais especializados: fisioterapeuta, enfermeiro, farmac√™utico, nutricionista, fonoaudiólogo, psicólogo e um time de médicos intensivistas dedicados 24 horas por dia.

Para Lobo, embora o n√ļmero de leitos de UTIs no pa√≠s esteja dentro da média mundial, o problema est√° na m√° distribui√ß√£o entre os estados e entre os entes p√ļblico e privado. "No SUS, a situa√ß√£o é mais cr√≠tica porque j√° temos 95% de ocupa√ß√£o dos leitos."

Em um pior cen√°rio, é poss√≠vel que cirurgias eletivas sejam adiadas, que leitos sejam realocados de outras unidades dentro do hospital ou ainda que o poder p√ļblico os compre dos hospitais privados.

Lobo refor√ßa a necessidade de haver equipes de UTI em quantidade e qualidade adequadas. "E o principal: elas precisam estar treinadas e tranquilas. Quem n√£o pode ter p√Ęnico somos nós, que estamos na linha de frente."

Segundo ele, nos pa√≠ses com a situa√ß√£o do coronav√≠rus mais cr√≠tica, como a It√°lia, os profissionais de UTI est√£o sofrendo estafa. "A gente precisa pensar nisso tudo e se preparar, n√£o deixar para o √ļltimo momento."

Fonte: Banda B

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