Alta dos juros prejudica a indústria e reduz expectativas para o comércio em 2022

Por Redação em 12/12/2021 às 07:26:07

A escalada dos juros para 9,25% ao ano promovida pelo Banco Central (BC)— e a sinalização de que a Selic vai continuar em trajetória de alta — geraram críticas de grandes setores da economia brasileira. Enquanto representantes da indústria consideram o avanço do índice “excessivo”, membros do varejo afirmam que o plano de endurecimento monetário é uma “péssima notícia”. O novo acréscimo de 1,5 ponto percentual na taxa básica alarga a caminhada dos juros para dentro do campo contracionista, ou seja, quando a Selic gera dificuldades para o desenvolvimento das atividades econômicas. Os dois segmentos serão atingidos pela reação em cadeia deflagrada pelo aumento do “custo do dinheiro”. Com menos recursos em circulação, as pessoas vão frear o consumo. A queda nas vendas vai fazer com que os comerciantes diminuam a frequência e o volume de encomendas nas fábricas, e assim a indústria passa a produzir menos. O resultado é o desaquecimento geral da economia brasileira, o que deve impactar no aumento do desemprego e no agravamento de índices sociais. O aperto da política monetária ocorre em resposta ao galope mais intenso e as forças mais disseminadas da inflação. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi a 10,74% no acumulado em 12 meses encerrados em novembro, ante alta de 10,67% no mesmo período em outubro. Opiniões divergentes corroboram a teoria de que a Selic elevada traz um peso extra a setores fundamentais da economia, mas que este é um mal menor frente à possibilidade de perpetuação das pressões inflacionárias.

Antes mesmo da divulgação da alta dos juros, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revisou as expectativas de vendas em 2021 (3,1%) e 2022 (1,2%) em meio à desaceleração do setor, principalmente devido à inflação. O aumento da Selic e a contratação de taxas ainda maiores ao longo de 2022 devem trazer uma nova dose de pessimismo para o setor. Para Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da entidade e ex-diretor do Banco Central, a autoridade monetária erra ao dar sequência ao ciclo de endurecimento. “Essa alta dos juros foi desnecessária e é uma péssima notícia para quem vende”, afirma. Segundo ele, o impacto da majoração da Selic nas taxas de empréstimos e de financiamentos vai afastar os consumidores das lojas pelo temor de contração de dívidas que se tornem insustentáveis. A escassez de insumos nas linhas de produção e os gargalos que isso gera na oferta global são constantemente apontados como os grandes fatores que agravaram a inflação ao longo de 2021, e um dos riscos para domar a variação de preços nos próximos meses. Segundo Freitas, essa problemática tende a diminuir gradativamente com a normalização das economias no pós-crise. “O problema da inflação é pelo lado da oferta, não do consumo. Quando essas questões forem resolvidas, entre maio e junho do ano que vem, a inflação vai se normalizar naturalmente”, diz.

A produção industrial, justamente a mais prejudicada pela falta de matérias-primas, vai precisar fazer um esforço extra para se manter em meio à iminente onda de retração do consumo. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou uma nota com críticas à decisão do Banco Central em promover novo aperto da política monetária, principalmente pela intensidade e velocidade praticadas pela entidade. O aumento para 9,25% foi o sétimo seguido e representa o maior choque nos juros promovido pelo BC em quase 20 anos com o acréscimo de 7,25 pontos percentuais em nove meses. “A CNI entende que as restrições nas condições de crédito para consumidores e empresas poderiam ter seu ritmo reduzido. A decisão do Banco Central por um sétimo aumento expressivo da Selic vai de encontro a essa necessidade, aumentando o custo do financiamento e desestimulando a demanda, justamente em um momento em que muitas empresas ainda estão se recuperando”, informou a entidade.

Um dos principais pontos de debate sobre a subida dos juros é o efeito de defasagem que a ação tem na economia. O movimento feito em novembro, por exemplo, deve se refletir realmente apenas no fim do primeiro semestre de 2022. Apesar de esse espaço de meses para se confirmar se a medida fez efeito na desaceleração da inflação, Marco Caruso, economista-chefe do Banco Original, afirma que é melhor se precaver. “Faz mais sentido continuar subindo os juros do que parar agora e depois descobrir que deveria ter subido mais”, afirma. “É melhor ser incisivo para conseguir cortar os juros mais cedo do que subir de forma lenta e manter os juros elevados por mais tempo.” Para Caruso, os próximos meses serão de bastante desafio para os setores da indústria e do comércio em meio ao aumento dos custos causado pela inflação e a queda da demanda gerada pela alta dos juros. “O Banco Central torce para que o repasse dos custos seja limitado, e, ao mesmo tempo, freia o consumo. Em um primeiro momento, é difícil que isso não reduza os resultados das empresas, mas isso leva à queda da inflação, e então ele pode começar a cortar os juros”, explica.

ipca acumulado em 12 meses novembro

A retração das atividades acentua o quadro delicado que o comércio e o varejo enfrentam em 2021 com a estagnação da economia de forma generalizada e a alta inflacionária. A produção industrial registra números no vermelho desde junho, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em outubro, último mês divulgado, as atividades estabilizaram com resultado negativo de 0,6%, o mesmo aferido em setembro. Já as vendas no comércio acumulam três meses seguidos de queda, apesar do registro de outubro indicar a estagnação, com leve retração de 0,1%. O cenário desafiador também é traduzido pelos dados do Produto Interno Bruto (PIB). A produção industrial ficou estagnada em 0% no terceiro trimestre de 2021, na comparação com os três meses anteriores, que já haviam registrado queda de 0,5%. Já os serviços de comércio tiveram duas quedas seguidas: 0,5% entre abril e junho, e outro tombo de 0,4% no trimestre encerrado em setembro.

Apesar das críticas, o Banco Central não dá sinais de que vá frear a alta dos juros nas próximas reuniões do Copom. Ao fim do encontro da semana passada, a autoridade monetária já deixou contratado um novo acréscimo de 1,5 ponto percentual em fevereiro, elevando a Selic a 10,75%. Para analistas do mercado financeiro, a escalada deve ser mantida, com a taxa de juros batendo a marca de 11,25% ao fim do primeiro trimestre. Estimativas do Boletim Focus, que reúne a mediana da opinião de mais de uma centena de bancos, casas de investimento e instituições, apontam para corte gradual e Selic a 8% ao fim de 2023, e 7% em 2024. A alta é vista como saída em meio à escalada do IPCA. O mercado financeiro projeta que o IPCA encerre o ano em 10,18%. O índice é praticamente o dobro do teto da meta perseguida pelo BC neste ano, de 5,25%, com centro de 3,75% e piso de 2,25%. A perseverança e força do indicador contaminaram as expectativas para 2022. Para o ano que vem, analistas esperam que o IPCA vá a 5,02%, também acima do teto da meta de 5%, com centro de 3,50% e piso de 2%.

Fonte: JP

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